Uma Exposição Bíblica de Lucas 5:33-39

José Bernardo

Toda decisão exige um juízo. Há muito a filosofia distingue os juízos de fato, o reconhecimento objetivo daquilo que é, dos juízos de valor, a avaliação subjetiva daquilo que preferimos, sentimos e desejamos diante do que é. A dificuldade é que raramente conseguimos manter essas duas operações separadas: nossas experiências passadas moldam nossos gostos, nossos costumes educam nossas avaliações, e o que nos é familiar tende a parecer, sem mais exame, o que é melhor. Tratamos preferências como se fossem fatos, e assim erramos ao decidir, pois julgamos a realidade a partir daquilo que já aprendemos a gostar.

O mesmo risco atravessa nossa relação com Deus. É possível estar sinceramente empenhado em cumprir a vontade divina e, ainda assim, avaliar o que Deus está fazendo a partir dos próprios costumes, das próprias experiências, das próprias preferências. Lucas 5:33-39 nos convoca precisamente a esse exercício: distinguir entre realidade e preferência, reconhecer quando nossa avaliação já está condicionada pelo que experimentamos, e renovar nosso entendimento para discernir e acolher o que de fato corresponde à vontade de Deus.

A cena começa com uma pergunta que compara os discípulos de Jesus aos discípulos de João Batista e dos fariseus: por que aqueles jejuam e suplicam com frequência, enquanto os discípulos de Jesus comem e bebem? Jesus não responde com uma justificativa direta, mas com quatro imagens sucessivas: os convidados do noivo, o remendo de pano novo, o vinho novo nas vasilhas de couro e, por fim, o costume de preferir o vinho velho ao novo. Cada imagem analisa a questão de um ângulo diferente, até que a última expõe a raiz de todas: não a inadequação do jejum ou da festa, do remendo ou do odre, mas a inclinação humana de preferir o que já se conhece, apenas pela força do hábito.

Enquanto o Noivo Está com Eles

Tudo começa com uma comparação. Fariseus e mestres da Lei, os mesmos que, pouco antes, haviam questionado a companhia de Jesus à mesa dos publicanos, levantam agora outra acusação, desta vez fundada em práticas religiosas reconhecíveis. Os discípulos de João e os discípulos dos fariseus jejuam e suplicam com frequência (νηστεύουσιν πυκνὰ καὶ δεήσεις ποιοῦνται); o presente verbal e o advérbio “frequentemente” descrevem hábitos, não exceções: sinais estabelecidos de piedade, reconhecidos por qualquer observador daquele contexto religioso (cf. Lc 18:12). Os discípulos de Jesus, em contraste, comem e bebem (ἐσθίουσιν καὶ πίνουσιν), também no presente contínuo. A acusação, portanto, não é teológica, mas litúrgica; não diz respeito à fé, e sim ao comportamento: parecia faltar aos seguidores de Jesus o sinal externo pelo qual a piedade costumava ser reconhecida.

À pergunta, Jesus não respondeu com uma tese, mas com outra pergunta: seu modo costumeiro de conduzir o interlocutor a pensar por si mesmo até encontrar, ele próprio, a resposta que o convencesse. Podem os convidados do noivo jejuar enquanto o noivo está com eles? A pergunta pede o reconhecimento de algo simples: uma prática legítima pode ser inadequada conforme a situação. Jejum e festa comunicam disposições opostas: o jejum expressa gravidade, privação, súplica; a festa de casamento expressa presença, comunhão, alegria. Embora as Escrituras usem a figura do noivo para Deus e para Cristo, o argumento imediato de Jesus não depende dessa identificação: funciona, antes, pela situação ordinária de qualquer casamento, em que os convidados celebram enquanto o noivo está presente. “Mas virão dias em que o noivo lhes será tirado; naqueles dias jejuarão”. Não é necessário, aqui, atribuir um sentido cronológico preciso a essa frase, como se apontasse diretamente para a Ascensão. O que a parábola ensina é mais simples e mais amplo: há situações em que festejar é o que convém, e outras em que convém contristar-se.

Uma segunda parábola desloca o argumento da situação para a identidade. Ninguém tira um remendo de pano novo para costurá-lo em roupa velha. O uso neotestamentário de parabolē é mais amplo do que a categoria literária moderna que chamamos de “parábola” em português: ele coloca uma realidade lado a lado com outra, convidando o ouvinte a perceber a correspondência entre elas e chegar a um juízo. Lida em paralelo com Mateus e Marcos, a imagem também evoca o comportamento distinto do pano novo e do velho: o pano novo, ao encolher, rasga o tecido velho ao qual foi cosido, e assim se estraga tanto a roupa quanto o remendo, que, em grego, symphōneō (“soar junto”), não se harmoniza com aquilo a que foi unido. A parábola não pretende alegorizar o tecido velho ou o novo; apenas evidencia o erro de unir elementos estruturalmente incompatíveis, cuja desarmonia não está na aparência, mas na essência material de cada um.

A terceira imagem, vinho novo em odres velhos, segue a mesma lógica, introduzida pela conjunção aditiva kai, que a coloca na mesma categoria da anterior: uma prática conhecida de todos os ouvintes. Também aqui não convém buscar significados específicos para o vinho ou para os odres; o texto aponta, antes, para a situação. O vinho novo, ainda em fermentação, libera gases que dilatam o odre; se este já perdeu a elasticidade com o tempo, rompe-se. “Vinho novo deve ser posto em odres novos”: a parábola é sobre escolher de acordo com a capacidade de cada recipiente. Com essa terceira imagem, completa-se um conjunto: oportunidade no casamento, identidade no remendo, capacidade no odre.

Uma quarta imagem, ainda ligada às anteriores pela mesma conjunção aditiva, desloca finalmente o argumento das propriedades das coisas para a avaliação da pessoa, do exterior para o interior. Ninguém, depois de beber o vinho velho, deseja o novo, pois diz: “o velho é bom” (χρηστός, chrēstos: próprio para uso, satisfatório). A avaliação não parte da neutralidade, mas de uma experiência anterior que já formou o gosto; e o verbo usado, θέλω, thelō, não descreve exatamente um objetivo, mas um desejo, um propósito ou sentimento vocacional. A experiência anterior produz um juízo de valor que orienta a preferência. Depois de apresentar três condições objetivas, adequação, compatibilidade e capacidade, Jesus chegou, enfim, à condição antropológica que atravessa toda a discussão: tendemos a avaliar o novo a partir do gosto que já formamos com o velho.

Remendo Novo em Roupa Velha

O questionamento que abre a perícope já define, por si só, o ensino do texto: a defesa da diferença legítima entre os discípulos de Jesus e os discípulos de outros grupos religiosos. Por que os seguidores de Jesus se comportam de modo distinto das tradições e das leituras conservadoras de sua época? Porque a piedade não se mede por um repertório fixo de práticas externas, mas pela adequação dessas práticas à situação, à identidade e à capacidade que Deus estabelece em cada momento.

Cada uma das três primeiras parábolas denuncia um erro possível dos discípulos: atitudes dissociadas da situação, incompatibilidade com a identidade essencial das coisas, incompetência para reconhecer os limites de capacidade. A incongruência com situação, identidade e capacidade revela uma mentalidade desconectada da realidade; é justamente essa desconexão que produz critérios e motivações incapazes de gerar resultado real.

O contraponto positivo, contudo, também está ali. Na primeira parábola, Jesus reconheceu que há um tempo em que o jejum é a escolha adequada. Na terceira, há instrução objetiva para conectar a ação de armazenar o vinho novo com a capacidade real do odre. Na segunda, está implícito que o remendo deveria ser da mesma natureza do tecido remendado. O acerto que o texto promove, portanto, é a mentalidade que decide e age de acordo com aspectos objetivos de situação, identidade e capacidade, não segundo impressões subjetivas.

O contraponto final, porém, é o mais incisivo: decidir por juízo de valor, segundo o gosto e a experiência pessoal, em vez de decidir pela situação real, pela natureza das coisas e pela capacidade que de fato possuem. No versículo 39, a pessoa já provou o vinho velho, está satisfeita com ele, considera-o chrēstos, bom, agradável, útil, adequado, e por isso não deseja o novo. Seu juízo nasce da experiência anterior e da satisfação pessoal, não do exame daquilo que a realidade presente exige. O “gosto”, então, torna-se uma figura precisa da nossa subjetividade: nossas preferências são formadas por aquilo que já experimentamos, aprendemos, praticamos, apreciamos, tememos e a que nos acostumamos, sob influências emocionais, intelectuais, sociais e culturais. Tais preferências podem nos levar a escolher o que é familiar e satisfatório sem considerar devidamente a situação que enfrentamos, a natureza daquilo com que lidamos ou sua real capacidade de atender ao que é exigido. A instrução do texto, portanto, é um chamado à vigilância: reconhecer o quanto nossos juízos podem ser condicionados pela própria subjetividade e recusar-nos a fazer da satisfação pessoal a medida daquilo que é apropriado.

O Vinho Velho é Melhor

A subjetividade de nossas experiências continua a interferir em nosso juízo. O gosto pessoal cega o juízo de fato e nos torna reféns do juízo de valor: escolhemos o que nos agrada, o que nos deixa confortáveis, não necessariamente o que corresponde à vontade de Deus e produz fruto para a glória dele. Por isso este texto precisa ser aplicado, e não apenas compreendido.

Ele nos convoca, primeiro, a uma confissão: quantas de nossas decisões se desviaram do juízo de fato, dos critérios objetivos ligados à missão, para perseguir aquilo que preferimos, de que gostamos, com que nos sentimos confortáveis? Reconhecer essa troca, silenciosa e quase sempre inconsciente, é o primeiro passo para que o texto cumpra em nós o seu propósito.

Ele nos chama, em seguida, a uma conversão concreta: decidir e agir conforme juízos de fato, segundo critérios objetivos que conduzam ao cumprimento da missão divina e a resultados que glorifiquem a Deus. Vale perguntar, sem pressa, que áreas de nossa vida e de nosso ministério ainda precisam ser reavaliadas e reorientadas para a realidade, e não apenas reajustadas às nossas preferências pessoais, moldadas como são pelas pressões emocionais, intelectuais, sociais e culturais que condicionam a forma como percebemos, julgamos e agimos. E ele nos conduz, por fim, a uma santificação: viver de tal modo que nossas decisões e comportamentos se diferenciem, com liberdade, dos costumes de outros grupos, não porque buscamos ser diferentes, mas porque recusamos ser guiados pela subjetividade, pelas tradições ou pelos sucessos alheios. Que aprendamos, como o odre novo, a receber o vinho novo sem romper; que a nossa piedade não seja a repetição de um hábito que já provou seu gosto, mas a disposição renovada de servir à vontade de Deus, ainda que ela exija de nós o que ainda não experimentamos. O vinho velho parece bom porque já o conhecemos; mas, e se for o vinho novo que Deus está servindo?

Foto de José Bernardo

José Bernardo

Fundador e presidente da missão AMME

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